sexta-feira, 3 de junho de 2016

Encontro

 

Eles se curtiam e apenas o tempo os separava. Estavam na mesma Veneza, num só abraço, mas as linhas nos lábios dela não a deixavam esquecer - tempo, tempo, tempo. E o olhar dele era tão escuro!
Ela tocou a palma de sua mão esquerda e lhe adivinhou o espírito. Foram íntimos por um infinitésimo de segundo. Ficaram expostos. Sentiram a distância. E se abandonaram.

sábado, 1 de dezembro de 2012

A Teoria dos Dois Bezerros




A minha família por parte materna guarda ares matriarcais. Vovô precisou conviver com 09 mulheres mandonas, além da sua companheira Mazé (ainda mais dona da razão), contando com a solidariedade solitária de meu único tio: Tidão (abreviatura de Tio João, claro). Como Tio Dão mora num lugarejo de difícil acesso em tempos de estio (e de acesso impossível em tempos de chuva), tenho pouco contato com essa figuraça ímpar no álbum-das-pessoas-que-valem-muito-conhecer. Nos passeios de final de ano ao Sítio dos Nunes, Princesa Isabel, Serra Talhada e Custódia, seguindo o rastro de meu avós, eu tive a felicidade de, ainda menina, conhecê-lo minimamente e guardei a impressão de um cara gente boa. Anos se passaram e, acometida de insanidade temporária, estiquei minha passagem por Flores até o distrito de Fátima, terra de João. Eu o vi de longe, caminhando por uma calçada com chocalhos na mão. Dirigi-me àquele agricultor das antigas, cabra sério, trabalhador, nesses termos: "é muito desavergonhamento! rouba a vaca alheia e ainda sai tocando o chocalho para o dono ouvir". Menino, na velocidade de um raio, ele se voltou pra mim com os olhos apertados e devolveu na lata: "com uma doidiça dessa, só podia mermo ser filha de Ciça". Não disse? Gente boníssima.
Meu tio é uma autoridade em conhecimento de criação de gado - digo, gado para a agricultura familiar. Já correu muito trecho pelo sertão para vacinar as reses contra a aftosa e aconselhar outros criadores. Seu conhecimento se estende para além dos bovinos e, noutro dia, andava meio cismado com uma égua, sempre tão mansa, mas que ficava toda arredia quando um compadre seu se aproximava. Já desconfiado por tanta animosidade sem causa aparente, não ficou lá muito surpreso quando o dito cujo apareceu morto, com as calças arriadas, uma marca no peito bastante semelhante a uma patada e a égua toda faceira pastando ali por perto. Tidão conhece os animais, os homens e os costumes antigos do sertão.
Pois bem, essa pessoa de trato simples, sorriso fácil e aperto de mão firme, esteve deveras agastado nos últimos meses: não bastasse a seca de lascar, uma vaca emprenhou! É pra arrombar o juízo de qualquer um... A notícia, normalmente, alvissareira, trouxe-lhe uma preocupação extra justamente em virtude da escassez de água e de pasto para manter seu miúdo rebanho. Como já lhes falei em outra oportunidade, animais estão sendo abandonados nas estradas para morrerem ao relento em virtude da seca que atravessamos e da classe política descompromissada e corrupta que nos representa (estou tão arretada que não farei exceções, embora saiba que elas existam). 
Voltando à peleja de Tio Dão, ele se sentia mal, também, porque não tinha motivos para estar feliz com aquela situação, como é de seu feitio. Lamentou-se pra quem pôde: em casa, na rua e por telefone (fixo, porque em Fátima só pega celular na porta da igreja). De modo que, sem saber direito como iria superar aquela aprovação, prestou assistência quando a vaca entrou em trabalho de parto (eis mais uma de suas habilidades) e qual não foi sua surpresa: a vaca teve gêmeos! Tidão não aguentou de felicidade e tirou uma pilhéria com seu Nosso Senhor: "mas Jesus! eu aperriado sem saber o que fazer com um e tu me manda logo dois?!". Ele realmente creu que o aumento do aperreio era, em si, uma mensagem de boas novas. Explica-se: a ocorrência de dupla cria, para aquelas bandas, já não é tão comum em tempos de "vacas gordas", que dirá com a vaca magra!

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Adeus, Denis!

Tive a oportunidade de ter o historiador Denis Bernardes como meu professor em algumas disciplinas na graduação e mestrado em Serviço Social, mas demorei um bocado para aprender a aprender com um mestre, de tão acostumada que estava com professores que professoravam diante daqueles que criam ser, literalmente, a-lunos. O alagoano me chocou, de início, por não fazer chamada e, depois, por permitir à turma estabelecer seu próprio ritmo (foi minha primeira experiência com um professor que realmente estimulava a autonomia nos estudantes). A presença elegante era marcante pelo interesse com que se dispunha ao diálogo (isso, o velho mestre gostava muito mais de dialogar que debater). Reza a lenda que, recém chegado da França, ministrava aula para uma turma na graduação quando percebeu um bilhete correndo de mão em mão, despertando olhares em sua direção e sorrisos mal disfarçados. Assim, pôs-se ao lado da última estudante que recebeu o papel, estendeu a mão e pediu para vê-lo. A graduanda, mortificada, entregou-lhe a folha que havia sido arrancada de um caderno qualquer e todos, apreensivamente, esperaram a reação do professor que se limitou a apreciar o conteúdo tão fortuitamente compartilhado e, após guardá-lo no bolso vagarosamente, dar continuidade à aula sem jamais abordar o assunto. Dizem que o papel continha um desenho caricato de um homem magro, de óculos, dando aula pelado.

Mas que ninguém confunda essa extrema cortesia com falta de humor! Denis era conhecido por ser um folião, apreciador de vinhos, licores e outras águas ardidas, além de gostar de saborear fumos de boa qualidade. Há poucos anos, presentei-o com uma moringa de barro contendo cachaça envelhecida. Ele me disse, pesaroso, que seus problemas estomacais haviam restringido sua dieta. Fiquei consternada e pedi desculpas, ao que ele me garantiu: "Margareth, eu não disse que não vou beber; só demorarei mais para chegar ao fim". 
O Professor Denis deixa para as ciências e a sociedade em geral um rica produção intelectual. Para quem, como eu, teve a oportunidade de conviver com essa figura ímpar, os ensinamentos superam a capacidade de memoriar e, na minha opinião, constitui referência extra-muros acadêmicos. Algo pitoresco sobre ele e que me faz pensar duas vezes se realmente preciso usar o carro: Denis não dirigia e era habitué do Rui Barbosa/Dois Irmãos. Era o único professor que eu sabia não ter carro e (como é característico de minha pessoa) perguntei-lhe o porquê daquilo. Denis me disse que não sentia tesão pensar em dirigir e via um certo charme em andar de coletivo. 
Outro momento que meus registros afetivos logo me trouxeram à lembrança quando me pus a pensar nele: havia terminado um namoro prolongado e, toda magoada, só me referia ao ex como "defunto". Almoçava com Denis um dia na faculdade e ele me disse que estava sem entender como um defunto podia me ligar. Eu expliquei que o cara não havia morrido de fato, apenas o namoro se desfez. Ele me olhou sério e disse: "Margareth, estou separado há pouco tempo e fico arrasado de pensar alguém me chamando de defunto por aí". Morri. Fiquei tensa. Baixei a cabeça, respirei fundo e voltei a encarar Denis. Rimos com gosto! 
Durante o mestrado, Denis foi bem mais que um orientador de dissertação. Respeitou como ninguém uma das fases mais turbulentas de minha vida que tiveram amplos rebatimentos na qualidade de meus estudos. Sempre admirei, mas nunca entendi como ele conseguia fazer uma crítica parecer um afago. Houve um momento em que eu desisti, a autocrítica corroía minha capacidade de produção e não conseguia avançar nos escritos. Abri o jogo com ele e confessei que me sentia nua quando pensava em alguém lendo o que havia escrito e, em seguida, perguntei se ele nunca havia sentido o mesmo. Com aquele jeito de quem não perdia nem o amigo nem a piada, ele me respondeu: "não, Margareth; não haveria ciência se mais alguém pensasse assim".
No dia da defesa, o bom humor de Denis também esteve presente. Eu estava uma pilha de nervos e, minutos antes, da formação do ato solene, perguntei para ele se havia possibilidade de ter o trabalho reprovado. Recebi como resposta:
- Não está muito tarde para se preocupar com isso? "Alea jacta est" 
Por essas e outras que, passado um tempo da defesa do mestrado, encontrei com ele que se queixou: "você me faz sentir um palito de fósforo usado; queima minha cabeça e depois me esquece". Ficamos de tomar um café... mas o tempo passou e não retrocede. 

Adeus, Denis! 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Velório no interior



Há um quarto de século, velório em cidade pequena era um evento social que exigia ritos específicos e, a depender das posses do sujeito ido, do seu engajamento político ou das circunstâncias obituárias (de morte morrida ou de morte matada), o momento ostentava toda a pompa requerida. Mas seria injusto de minha parte dizer que pobre só era prestigiado no seu instante derradeiro se fosse cabo eleitoral dos bocas brancas ou pretas. Nada disso!
Lembro que as crianças recebiam com certa expectativa a notícia da morte de alguém... Muito mórbido dizer isso? Mas é verdade e me explico: a depender da hora em ocorreu o fatídico, era dado como certo o velório varar noite adentro. Amanhecíamos o dia pelas calçadas em frente à casa das lembranças e das dores, ouvindo os mais velhos contarem altas histórias sobre peripécias envolvendo o decujos. Quase como os contos fantásticos de pescadores, sucediam-se histórias sobre grandes feitos (conhecidos ou imaginários). Em caso de mal-sucedido, sobretudo os desconhecidos e inimagináveis, a tradição pedia iniciar desse modo: "Deus tape-lhe as oiças, mas a verdade é que o falecido não era flor que se cheirasse" e descorria-se um rosário de puladas de cerca, emboscadas, calotes, experiências animalescas e todo tipo de impublicáveis. A censura era altamente relativizada, apesar da presença dos pequenos - parecia que havia urgência em expor o defunto, enquanto o corpo ainda estava sobre a terra, para que cada um pesasse em sua consciência o valor atribuído àquele que nos deixava. 
Um velório, no entanto, não era feito só de línguas ferinas. Coisa corriqueira, as mulheres providenciavam os itens necessários à sopa do morto. Café forte e canja de galinha eram fundamentais para atravessar a noite em pé, cantando louvores, lavando a louça, rezando o terço e, ponto alto, contando piada. Sempre me impressionava como as pessoas (em geral, as pessoas masculinas) sentiam-se livres para elucubrar pornofonias depois da meia-noite. As expressões resignadas iam cedendo lugar ao riso frouxo para, logo em seguida, recolher-se e meditar sobre a vida: "menino, como a gente não é nada! Nesse instante, ela tava barrendo o terreiro e agora...". E volto minha atenção para a personagem principal do único ato certo do teatro que é a vida: o defunto. 
O caixão jazia na sala, coberto de flores e um pano rendado, tendo logo abaixo uma bacia com água (parece que ajudava a dissipar o odor enjoado que, no decorrer das horas, era possível sentir). O corpo, invariavelmente, ficava com os pés voltados para a porta, a fim de não errar o caminho para o lado de lá. Caminho este que era alumiado pelos quatro castiçais da igreja com velas acesas e ao menos uma coroa de flores, exigida pelo decoro. Algo que nunca entendi: a fila formada para dar uma espiada nas feições rijas. Se fosse homem, o protocolo estipulava uma viúva inconsolável que não arredava o pé nem para ir ao banheiro. Se fosse mulher, percebia-se o viúvo pela cisudez com que se punha a olhar a casa, como a procurar a presença da companheira de uma vida.
Junto com os primeiros raios de sol, irrompia o carro de som a anunciar o enterro: "Fulana de tal, família e amigos convidam para o sepultamento de seu querido esposo, pai e avô que ocorrerá no cemitério novo". (Ainda consigo ouvir a voz de Doroteu, tendo ao fundo o hino "segura na mão de Deus"!). Púnhamo-nos todos atrás do caixão que era erguido pelos homens - e os meninos esticavam os braços para tocar com a ponta dos dedos o ataúde. Interessante, ainda, observar que os passos miúdos eram solenemente acompanhados por tudo quanto era cachorro na rua. Parada na igreja e segue o cortejo para a morada última do pai, da filha, do amor. E não se percebe nenhuma sombra do riso da madrugada que mal acabara. A gravidade da hora se impõe com toda a lucidez do fim.


terça-feira, 10 de julho de 2012

Germano



Germano tinha estatura um pouco mais avantajada que a de outros garotos de sua idade. Valia-se disso para não abrir em briga - aliás, começava a maior parte delas. Tão jovem com seus sete anos e já ostentava um vinco na testa, sempre franzida para expressar seu estado de (mau) humor - se fosse desenho animado, poderia até ser acompanhado de uma nuvenzinha turbulenta sobre a cabeça.
Lá pelos antigos anos 90, cursava a 1ª série e reproduzia em sala - e nas demais dependências do colégio - sua sociabilidade violenta. Eral malquisto por professores (mandava-os tomar no c* sem maiores constrangimentos) e por seus colegas, pois tocava "terrorzinho" na entrada, no recreio e (com mais liberdade) na saída do colégio. Sua zanga também se voltava contra o caderno, o qual rasgava sem dó nem piedade. Um menino, mas já era considerado um caso perdido.
A chegada de uma estagiária de magistério que não sabia cantar mexeu com a rotina da pequena escola. Iniciou seu semestre letivo na turma da alfabetização e esguinchava as cantigas infantis com total desespero e insegurança. Com poucos recursos e restrita orientação, a-que-queria-ser-professora precisou ressignificar sua presença naquele grupo - já havia notado que era motivo de piada para os professores e alunos das outras turmas, que se aglomeravam em frente a sua porta quando se dispunha a cantarolar com a turminha. Encarou o desafio de rir de si mesma e ter naquilo um mote de diálogo com os alunos: "onde eu desafinei? foi no gato? quem sabe desenhar? e como se escreve"? Que apoio aquelas figuinhas de 5 e 6 anos lhe deram! Quanta generosidade.


Mas a estudante de magistério sentia calafrios mesmo era quando pensava que precisaria encarar Germano - vocês sabem, a fama muitas vezes nos precede. E, nesse caso, um já sabia do outro, mesmo antes de ela adentrar na 1ª série A. Aquele meninote, que tirou sangue dos narizes de uns e amoleceu os dentes de outros, costumava ser o mais assíduo na frente da sala de alfabetização. Sua chacota a pertubava um pouco mais que as zombarias dos outros porque parecia encerrar um tom raivoso. Na verdade, penso que os dois ansiavam pelo encontro.
Este não tardou tanto quanto gostaria a estagiária. Ela tinha a sensação de que a sala toda poderia, uníssona, reproduzir a famosa fala de um personagem de cinema: "eu sou o seu pior pesadelo". Nos primeiros dias, nada dava indícios do que o futuro reservava à adolescente de 17 anos, estudante do último ano e ao menino pintado de sardas, morador da vila. No dia em que se instalou um conflito com Germano, que precisou da intervenção da professora-titular e da diretora, disse não poder continuar com o estágio. Foi quando descobriu que os outros profissionais não detestevam o garoto, mas estavam saturados (das péssimas condições de trabalho, dos baixos salários, da falta de apoio... e dele também, por que não?). Argumentaram que o Germano era rotineiramente espancado em casa e já chegara à escola com hematomas. No final do ano anterior, presenciara o assassinato do pai, a facadas, em bar onde costumava beber na companhia do filho. Este episódio teria influído, decisivamente, no aumento de sua agressividade.
A futura professora também conhecia de perto a violência doméstica. Solidarizou-se com o garoto de uma maneira única. Passou a sentar-se ao seu lado e superou todas as tentativas de Germano em permanecer afastado - mas a verdade é que ele também pareceu abatido com o conflito que ocorrera. Logo, ficou claro que a raiva que o menino direcionava ao caderno era reflexo, entre outras coisas, da frustração que sentia por não aprender a escrever nem um "a". Disposta a estabelecer uma comunicação com Germano, a estagiária fez um caminho inverso; ao invés de pedir para ele escrever as vogais, pediu para ele identificar com que letras seus desenhos mais se pareciam. E, enfim, a coisa fluiu. Mas uma pneumonia interrompeu aquele processo, levando a estagiária a afastar-se da sala de aula.

A maior surpresa que tive em minha vida, quando retornei de Barbalha/CE para Exu, depois que tive alta hospitalar, foi acordar com a 1ª série A, à frente da minha casa, cantando pra mim. Foi uma das mais fortes emoções que senti em todo o meu percurso por este mundo de bóson de Higgs (a famosa partícula de Deus). Não lembro a música, mas vou recordar sempre que, entre todos aquele pessoal, o sorriso de Germano se destacava.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Todo mundo nasce Santa Cruz...



Conheço uma figura que é um verdadeiro aficionado pelo Santa Cruz, sua grande (talvez, única) paixão. Pois bem, hoje falávamos sobre a conquista do título estadual por parte do glorioso e ele me sai com essa: "Magá, todo mundo que nasce em Pernambuco é Santa Cruz! É como católico: a gente nasce, é batizado e depois vira outra coisa". Dei altas risadas e argumentei que, na minha modesta opinião, quem nasce em Pernambuco é, na verdade, pernambucano... ao que ele rejeitou com veemência e aludiu ter provas científicas de que falava a sério. Além disso, hoje, 17 de maio de 2012, entendi o porquê da torcida ser conhecida como Inferno Coral: já couberam mais de 100 mil pessoas no estádio do Arruda.
Hipérboles megalomaníacas à parte, penso que foi uma belezura a vitória do Santinha sobre o Sport em plena Ilha, quando o anfitrião-aniversariante contava com a "vantagem" do empate. Não, eu não sou torcedora do Santa Cruz por um único e substancioso motivo: passei mais de 4 anos voltando da UFPE para casa de ônibus e precisei, muitas vezes, pegar o PE-15/Afogados. Quem já andou nessa linha, às quartas-feiras de jogo, fim do dia, sabe do que eu estou falando. Vinha caboco até no teto, gritando a plenos pulmões o hino tricolor. Gente, ainda que eu tivesse alguma simpatia pelo grande apelo popular do time em questão, tudo foi varrido para um canto inacessível de minha mente e só me restou a dor de cabeça provocada por aquela folia. 
Tive um único grande amor em termos futebolísticos: o Juventude da L.E.F.A. (Liga Exuense de Futebol Amador). Que barato dar uma escapulida (escondidíssima do pai e da mãe) para dar uma espiada no jogo dos meninos: Zaga, Cabelo de Fogo, Zezim Lambão... Não posso aceitar ser rotulada de maria chuteira, mas "peguei" amor por quase metade do time. Ô, tempos bão!!! Uma brincadeira gostosa, extremamente saudável e totalmente deturpada por interesses de mercado nos dias atuais. Se você perder um lance, é capaz de não entender o que o Carlinhos Bala estava fazendo no banco do Santa Cruz - e, pra piorar, sendo expulso e apanhando de torcedor do Sport. Saudades de torcer para o Flamengo (sim, tenho essa mancha rubro-negra no meu currículo) e não precisar colocar no Google o nome de cada jogador pra ter uma noção de quem vai estar em campo (sei, sei... o Google é de outro tempo! confundi tudo).
Hoje em dia, mal consigo vibrar com a seleção brasileira. Sinto vertigens pelo Neymar (mas pode ser só meu problema de fígado) e fico espantada em ter que admitir a factualidade verborrágica do Romário... o cara era um baixinho invocado e passou a ser a voz da indignação ao tuitar: "cadê o povo pra trabalhar" (em Brasília)? Galvão Bueno já foi uma espécie de otoridade e, atualmente, não passa de um white elephant. Só uma coisa permanece e isso me tranquiliza: o Juca Kfouri. O resto está um episódio non sense total... vamos até sediar uma copa (mas as escolas públicas permanecem sem aulas de educação física nem espaços adequados à prática de esportes)! Quem nos viu, quem nos vê. 
Como sou uma pessoa otimista, fico satisfeita demais em saber que todo o meu esforço em tentar aprender futebol deu muito certo. Saco tudo: escanteio, pênalti, impedimento, tiro de meta e gol. Só tenho alguma dificuldade em tática, gol de placa, de letra e em entender porque tem tanto campeonato nesse país. Agora, é melhor parar por aqui para mantermos a amizade.

Maga.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

É a Seca de Maio...


... castigando o sertão.

Meu avô materno, Chico Bastos, 93 anos, agricultor aposentado e eterno sanfoneiro, morador de Custódia/PE (sertão do Pajeú), conversava com minha mãe ao telefone e demonstrou grande preocupação com um conhecido seu porque esse senhor, já bastante idoso, tomou uma difícil decisão: envenenou todos os animais de seu sítio. Vô se preocupou com o estado depressivo em que o outro se encontrava. Falou também da situação de um outro criador de gado que, para não ver os animais agonizando de fome, resolveu vendê-los a qualquer preço em Carnaíba... Não obteve êxito e deixou os animais pelas ruas da referida cidade.
O caso de Custódia é emblemático, pois se trata de município que experimentou um surto de encarecimento do custo de vida (penso que isso não é desenvolvimento em si) por conta de duas grandes obras do governo federal - a transposição do São Francisco e uma ferrovia. É comum vermos, ao longo da BR-232, nas imediações da cidade, trabalhadores com macacões amarelos operando máquinas. Como consequência imediata, observamos ofertas de emprego (costuma-se dizer que até o preguiçoso está batendo martelo), o aumento exacerbado nos preços de imóveis para venda e aluguel e prostituição infanto-juvenil. Os recursos e as mazelas característicos de centros com acelerado processo de desenvolvimento desordenado. Mas as notícias veiculadas na mídia e internalizadas através da fala do meu amado e velho Chico revelam a persistência de fenômenos seculares: a seca e o descaso da classe política com a realidade da região.
Sinto particular tristeza com os períodos de seca como esta (que, informam os jornais, seria a pior dos últimos 30 anos) em virtude de um acontecimento muito significativo em minha vida. Em 1991, no auge do fenômeno El Niño, a seca assolava no meu sertão e até mesmo Exu apresentava as plantas rasteiras ressequidas. Ressaltei Exu porque a minha terra natal fica no pé da Serra do Araripe e, eu costumava pensar, era o último lugar onde a seca chegava. No início desse ano, retornando das férias passadas em Sítio dos Nunes, chorei um bocado, dentro do ônibus das Pernambucanas, à medida que me aproximava da cidade e constatava o solo de torreão avançando sobre meu recanto.  Pouco tempo depois, o Hugo Esteves noticiava na edição da noite do NETVa situação calamitosa em que se encontrava Ouricuri - que fica há cerca de 60 Km de Exu. Minha avó paterna, Dona Maria, cabocla exuense de saúde férrea, assistia ao noticiário na casa de Tia Fá e suspirou: "meu Deus! quanta tristeza"! Chorou em silêncio e faleceu. Minha vó era uma figura de personalidade riquíssima, cismada, cheia de cacoetes e alquimista dos melhores temperos da cidade (ela própria escolhia a quem vender seu colorau e sua pimenta). O vazio que ela deixou na família e nas mesas daqueles com quem vó simpatizava nunca fora preenchido.
Em 91, assim como agora e como antes, a seca (fenômeno natural intensificado pela ação do homem) deixou o sertão mais pobre e o descompromisso de nossos representantes (fenômeno, exclusivamente, politico-cultural) fez com que se alçassem os acontecimentos à categoria de catástrofe.