sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Novo dia... de novo?


Primeiro dia de 2013 e, em meio aos projetos e às lembranças, vem-me a recordação de uma pessoa querida, com quem tive a oportunidade de conviver durante um curto espaço de tempo, ponderando sobre a sua vida. (Estávamos num grupo de jovens "maduros", num discipulado da Igreja Anglicana em Recife, após cerca de um ano de convivência). Ela, uma mulher com cerca de 26 anos, com pós-graduação, bem empregada, família batuta, classe média, amigos, saúde em dia, corpão sarado, noivo lindo... Apesar disso tudo, ela demonstra certa melancolia quando começa a falar, dizendo que sua vida era como uma linha contínua e (nunca me esquecerei) volta-se para mim, emocionada, e afirma que tinha inveja da minha trajetória, que queria ter experimentado acontecimentos tão fortes quanto aqueles que eu vivi, que queria uma montanha russa e não mais do mesmo.
Não sei como as outras pessoas reagiram, mas tenho certeza que meu queixo despencou. Fiquei chocada! Como assim? Naquele grupo, eu havia falado sobre a pobreza material que eu e minha mãe havíamos atravessado, a vivência com um pai violento e abusador, o estupro aos 17 anos, o câncer e o tratamento quimioterápico que causaram dor e me deixaram limitações. Se eu não a conhecesse, se não soubesse que ela era tão linda por dentro quanto era por fora, diria que se tratava de uma piada de mau gosto. Eu ainda não havia aprendido (será que já aprendi?) a lidar com certos questionamentos, que vez por outra me assombram: por quê? e por que comigo?
Ao tempo em que falo sobre isso, ocorre-me que, há poucos dias, uma amiga me disse, a respeito de meus textos, que a impressionava a minha aparente capacidade de acessar, com riqueza de detalhes, passagens de minha infância. Como toda história contada, as minhas, por vezes, são aumentadas, editadas, recriadas; mas preciso concordar que trago conscientemente comigo uma infinidade de sons, cheiros, sensações, lembranças dos tempos de menina. E credito essa habilidade de me transportar para outro espaço, outra época, justamente por conta da vida que teria despertado tão intensamente o interesse da minha colega de discipulado. Desconfio que a explicação seja simples demais: boa parte de nós vive o dia-a-dia sem conseguir lembrar a cor da roupa que usou ontem, o que comeu no almoço, que dia cruzou com fulano na rua... mas será capaz de reconstituir a sequência e pausas que antecederam acontecimentos muito significativos em suas vidas, acontecimentos limítrofes, que poderiam transformar radicalmente o mundo como você o conhecia.
Vivi minha infância com uma estranha consciência da dor. A possibilidade de perder minha mãe para um arroubo violento de meu pai era real, latente. O Pânico que a presença paterna me provocava era visceral. Parece-me que, a todo o instante, eu buscava ao meu redor que outras possibilidades poderiam haver - e quando essas não apareciam, eu as inventava. Bem menina ainda, passei inúmeras noites em claro esperando o sol raiar para ter certeza de que o novo dia havia chegado, de que a vida seguia. Então, pensando sobre o que eu mesma aprendi a com a minha trajetória, creio que ter a chance de um novo amanhecer é tudo de bom e que sofrimento não deve fazer falta a ninguém. A consciência do que vivemos hoje, agora, é que nos deveria ser mais constante.
  

Quem me viu, quem me vê



Há alguns anos, alguém me enviou um e-mail muito interessante sobre a suposta involução do papel da mulher na música brasileira. Tratava-se de uma série de fragmentos de canções que iam de "em mulher não se bate nem com uma flor" até "só as cachorras"! Quando me deparei com a mensagem, ri e pensei que havia uma reflexão relevante. De cara, eu me senti contemplada, pois a música popular brasileira parece sofrer do mal dos tempos modernos: a descartabilidade. 
No entanto, como sei que ninguém procura em mim coerência nenhuma, sinto-me muito à vontade para dizer que eu mesmo tenho me surpreendido com o que ando curtindo ultimamente, em termos musicais. Minha iniciação musical não foi muito variada: Gonzagão, Gonzaguinha, Caetano, Chico e o pop rock dos anos 80. Tinha aversão a tudo quanto fosse diferente desse restrito repertório. Lembro da primeira vez que ouvi uma banda de forró estilizado (que diabos é isso?) chamada Mastruz com Leite - fiquei horrorizada. Aquilo que chamavam de música representava o fim da cultura regional tradicional. Essa percepção durou até poucos anos, quando viajei com amigas para passar o fim de semana em Pipa e uma delas saca um CD da banda Moído (espia que o nome) e queria botar pra tocar no sacrossanto som do meu carro, no meu quase- toca fita. Fui absolutamente inflexível e expliquei para uma Sandrinha de queixo caído os motivos que me levavam a vetar aquela fornificação no drive do meu possante. Pela resistência à cultura de massa, pelo velho Lua e pelo bem de meus ouvidos, eu disse não e ficou o maior climão boa parte da viagem. Nem mesmo todo o meu charme e poder de convencimento atenuaram a minha babaquice anterior. Pois bem, certa noite, em certo forró (na Casa de Zé Nabo), conheci uma criatura que me ganhou na lábia e no arroxo do Forró do Moído. Ouvia tanto determinada faixa do álbum que o CD criou riscos e tive que ouvir de uma mordaz Sandra: "quem te viu, quem te vê".
Antes ficasse só nisso! Eu, que não tolerava as famigeradas duplas sertanejas de início dos anos 90, caí aos prantos por esses dias ao ouvir no programa The Voice a música Undererê. Explico: meu pai adorava essa melodia. Então, aos primeiros acordes, um choro convulsivo me pegou de assalto... "foi sem querer que derramei toda a emoção". Na indolente adolescência, eu não percebia que, para além da breguice do corte do Zezé, aquele sertanejo falava de um amor que deixaria muita inventação de hoje em dia com vergonha.
Fato é que hoje muita coisa boa foi reabilitada pelo verniz do cult, pelo tempo que amaciou meu coração, pelo nível baixíssimo da concorrência e pelas histórias que foram ressignificando minhas experiências. Isso sem falar no meu crescente desenvergonhamento que permite dizer: Reginaldo Rossi é Rei!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Entre Bichos e Animais



Ontem, estava saindo da Jurandir Pires na Madalena, toda feliz e contenta (porque é bom demais escolher presentes para crianças), quando observo que os carros da frente não avançavam apesar de o sinal estar aberto. Estiquei o pescoço pra fora e vi que o motivo era um pequenino gato branco que mostrava as garras e os dentes para o primeiro carro - uma cena interessante de ver. Logo, o carro consegue seguir em frente sem machucar o animal. O motorista do Honda City que estava posicionado imediatamente na dianteira de meu carro não teve a mesma paciência e passou por cima do gatinho. Eu fiquei tomada por uma emoção tal que só quem já viu um atropelamento sabe do que estou falando. Vi o gato branco se arrastar para se proteger atrás de um poste e o automóvel seguiu sua viagem. Não pude fazer de conta que não estava abalada e desci para ver como estava o bichano - ele soltava miados longos e angustiados, mas não sangrava. Voltei  para o carro, mas era pedir demais fingir que não ocorrera nada e que também eu tinha o dever de fazer algo... Mas o quê?! Como tenho medo das unhas dos gatos, minha mãe desceu e aconchegou o felino aos braços. Nenhum animal poderia ser mais dócil - ele parou os miados, mas ainda não conseguia andar.
Lembrei que, na Madalena, havia uma Clínica Veterinária e me dirigi para lá, acreditando conseguir orientação sobre alguma ONG que desenvolva ações com animais naquela situação. A sala de espera da clínica estava lotada e a atendente não tendo a informação que precisávamos, orientou que esperássemos nossa vez (?) para só então perguntar à médica de plantão se  ela saberia nos dar a informação desejada. Conseguimos abordar a veterinária numa de suas saídas do consultório e ela disse não conhecer nenhuma ONG, que eu poderia levar o gato para o hospital da Rural na quinta-feira e que a consulta ali era 60 Reais. Olhei aquele rosto jovem, branco e indiferente ao animalzinho que se retorcia à sua frente e tive muita raiva dessa moral mercadológica que nos cerceia em cada ato de nossas vidas. Tive raiva da médica, mas também tive de mim mesma porque rapidamente pensei que os 60 Reais representavam apenas uma parte de um todo desconhecido (a consulta, certamente, se faria acompanhar de vacinas, raio-x e sabe-se mais o quê). 
Mas um coração menos indiferente e raivoso interviu muito satisfatoriamente na questão: minha mãe, com aquele tom de voz que só as mães têm, perguntou à médica se ela não poderia ao menos dar uma olhadinha nele. Visivelmente contrariada, a médica aquiesceu e entramos em seu consultório, onde ela procedeu um rápido exame clínico e afirmou não estarem as pernas do animal quebradas, mas talvez a bacia pudesse ter sido deslocada. Não sei porque, mas eu e Dona Cecília achamos aquela uma notícia muito boa e vibramos com ela - e talvez isso  ou os olhinhos azuis do gato tenham mexido com a jovem médica. Quando nos retirávamos felizes porque o gato, talvez, "só" tivesse a bacia quebrada, a veterinária pede que retornemos e examina um pouco mais atentamente o animal, trazendo mais boas notícias e receitando um analgésico.

È só um bicho, um pequenino bichano, mas que nos torna menos animais.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Quem conta um conto...



Certa vez, uma conhecida me dizia que não entendia porque estava solteira, pois compreendia que era uma mulher interessante. Ela, segundo ela mesma, reunia qualidades que a distinguiam - magra, loura e empregada - e não tinha "amarras" em seu passado. Mas, tadinha dela, só lhe apareciam rapazes mais jovens e ela preferia os de sua faixa etária; no entanto, não estava tendo sorte, pois todos que pintavam tinham história.
Ué, mas quem não tem?
Acontece que "ter história" consistia em um namorado tipo combo - você namora um cara e ganha enteados e ex de brinde. Para essa pessoa, em particular, as ex-mulheres não lhe assustavam, pois ela afirmava: "eu me garanto". Aquilo que de fato lhe incomodava era ter que dividir a atenção do pretendente com seus filhos sem poder reclamar, para não passar por chata. E especulava: "será que não existe um homem sem história"?

Obviamente, eu compreendi que a pergunta era meramente retórica e nem me incomodei em aprofundar aquela conversa tão "". Aliás, nem sabia que tinha guardado na cachola esse papo, até que um acontecimento recente me trouxe essas memórias de volta. Há muito desconfio das pessoas que querem parecer recém-nascidas ou, em outras palavras, que procuram nos fazer crer que não viveram antes de nós, que os anos passaram ser formar história. Para efeitos de lisonja, renegam suas vivências... vivências com as quais não se conciliam ou das quais se orgulham mas sabem que assustam - mais ou menos como o verso que o Frejat canta: "e eu vou tratá-la bem para que ela não tenha medo quando revelar o meu segredo".
Tá bom, penso que, em certa medida, muitos de nós temos algum receio de expor ao ser desejado tudo o que experimentamos - lícito ou nem tanto. E daí surgem as narrativas, que são nossas tentativas de emprestar coerência ao que somos, ao que pensamos que somos, ao que pensamos que os outros pensam que somos. Nessas narrativas há espaço para todos os sujeitos - de mocinhos a bandidos - e, frequentemente, desempenhamos mais de um papel, conforme percebemos que o "público" se entrega ou não. Entretanto, algo não vai nada bem quando alguém esquece o fio da meada e conta um conto sempre aumentando um ponto. Viver não é fantasia e, por mais tentador que possa parecer, ninguém pode pretender estabelecer relações reais sem se inserir num contexto, sem revelar o texto e só recorrer a pretexto.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Vou de Busão



Precisei voltar a andar de ônibus esta semana e digo e repito: apesar
de todos os pesares (lotação, sujeira, preço da passagem...), acho um
barato estar, literalmente, no coletivo.
Foi no ônibus que flertei com a revolução. Depois do terceiro Sarau
Social que organizei no laguinho da Federal (Chico no Lago, Cantata
Italiana e Noite Matuta), um amigo observou que eu parecia ter-me
submetido a uma transfusão e suspeitou que corria em minhas veias
Sangue de Boi (bolsista do CNPq ganha mal pacas... só dava para dividir o garrafão de 5 litros com a galera). Então ele decidiu me acompanhar até em casa e seguimos
juntos no Barro BR-101 até a Macaxeira. Chegando ao terminal, meu
amigo se dirige à catraca para pagar a sua passagem com o passe estudantil
e eu corri para o motorista, a fim de explicar as infinitas razões que
me levavam, naquele momento, a decidir não pagar a passagem - mas não
fui bem recebida e entornei o caldo. Candieiro (apelido de meu
fraterno) ouviu meu brado: "abaixo o capitalismo". Quase onze da noite
de uma sexta, integração vazia e eu ensaiando a Revolução da
Macaxeira.

Penso que esse tipo de transporte nos permite melhor perceber os
costumes que formam o caudaloso pântano da subcultura. Dia desses, uma
amiga (idosa, cidadã e funcionária pública exemplar) me confidenciou
que, inadvertidamente, pegou um ônibus em Olinda e se recusou a pagar
a passagem porque não sabia que a lei que permite a gratuidade a
pessoas a partir de 60 anos é do município do Recife - permanecendo 65
em outras cidades da RMR. E ela dizia:
- Quase morri de vergonha quando descobri. Nunca que eu tive a
intenção de não pagar a passagem maldosamente. Meu deus! E pensar que
fiquei exposta a um constrangimento.

Eu disse para ela não se preocupar, que ela agora sabia e que,
portanto, não voltaria a andar de graça nos ônibus de Olinda. E ouvi
em resposta:
- Mas pronto! E eu não sei fingir que ainda não sei não, é?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A Doação



Ontem, ouvi impressões a meu respeito. Disseram-me que sou uma figura tal que, se não existisse, teria que ser inventada! Achei bem legal até me dar conta que a bomba atômica também foi uma invenção. Outra apreciação que me teceram foi de que seria uma nata contadora de histórias, mas eu discordo, pois me vejo mais como uma perturbadora de histórias. E, por falar nisso, precisei ir ao hoje ao mecânico e lá encontrei dois representantes da segunda categoria profissional mais cheia de causos do mundo - os taxistas! Tentei evitar que meus lobos temporais se voltassem para a conversa imediatamente travada entre os dois estranhos que pareciam ter dividido o mesmo berço de tão íntimos; no entanto, não deu outra! E, claro, divido com vocês.
Eles falavam sobre a necessidade de não se deixarem levar pelas circunstâncias estressantes de seu trabalho - desde o valor exorbitante dos pontos, passando pelo trânsito e o calor até, necessariamente, os famigerados ladrões. Um dos senhores dizia que já havia ido a enterro de colegas que afirmavam que não perderiam para "ladrão safado" nem um real. O falante taxista dizia pensar diferente e perguntou ao outro:

- Se eu te contar uma história, você promete não rir?

O outro, evidentemente, desata a rir para deixar claro que não garantia nada.

 - Tá bom, pode rir porque a história é pra isso mesmo. Outra noite, parei para um negão que deu sinal e ele entrou no banco de trás. Eu já fiquei ligado porque sempre escuto a história dos outros... homem sentado atrás?! Daí, arrumei o espelho para olhar na cara dele e ver qual era sua intenção e ele baixou o rosto na hora. Pronto! Ali, eu já sabia que seria assaltado e fiquei me preparando para não ser pego de surpresa. A certa altura, ele mandou eu entrar numa rua... Meu irmão, pense numa rua esquisita! Lembro que pensei:"esse é o lugar ideal para um assalto". Permaneci de boa, só sacando a do negão pelo retrovisor. Vi a hora que ele puxou a faca - rapaz, a faca era desse tamanho (e fez um gesto que corresponde, em medidas sertanejas, a uma peixeira)... Nem sei onde ele tava guardando um troço daquele tamanho. De repente, ele encostou a faca aqui na minha costela e anunciou o assalto. Prontamente, eu respondi: "calma, amigo. Isso não é um assalto. É uma doação". Oxe! Quebrei as pernas dele na hora; ele não esperava uma reação dessa. Continuei: "tenho certeza que um tricolor como você só pode ter caído nessa por uma grande necessidade e eu quero lhe ajudar". Bom, joguei minhas fichas e não tive medo, mesmo sabendo que ele poderia me dar um tapa ou estourar meus miolos com o revólver (revólver?! como assim? eram uma faca e um revólver? ou era uma arma tipo canivete que tem várias funções? ou, nesse momento traumático, sua mente ficou confusa? ou...).

Nesse ponto, o narrador já tinha toda a nossa atenção - éramos mais três na pequena sala. Ele, de tão satisfeito, gesticulava e parecia dançar na cadeira de tão envolvido que estava com a história.

- Sabe o ele que fez? Tu não vai acreditar. Ele disse que já tava até arrependido de ter que me assaltar. E eu insisti que não era assalto coisa nenhuma, que eu fazia questão que ele levasse todo o meu dinheiro e meu celular também. Perguntei se podia me mexer para pegar os R$ 45,00 (era tudo que eu tinha) e disse para ele ir em paz, tranquilo, que ele não era assaltante. Foi tão de um jeito que ele respondeu: "homem, fique ao menos com R$ 5,00 para o combustível". Eu recusei porque sou homem de palavra! Se eu disse que ia dar tudo, não podia ficar com nada.

Gente, eu fiquei tão maravilhada com a história que não economizei nos elogios ao taxnarrador. O outro taxista, talvez por ciumes, talvez empolgado, não titubeou e revelou que tinha uma história ainda melhor que aquela. Um conhecido seu teria pego uma corrida até um edifício bacana em Piedade, à beira mar, com três rapazes, todos muito distintos, bem vestidos. Quando lá chegaram, os passageiros disseram só tinham o dinheiro da corrida no apartamento e o convidaram a subir. Uma vez na sala do AP, dois deles teriam entrado para o quarto e o terceiro ficou-lhe fazendo companhia. Ao retornarem, um dos homens estava armado com um 3oitão e abriu o jogo: "olha, o negócio é o seguinte: ou tu transa com a gente ou tu morre".

O outro taxista interfere:
- Como assim? Passivo ou ativo? Porque se for ativo, até dá.

E o narrador da vez:
- Tu encarava? Rapaz, eu tô dizendo que eram três homens! Se fosse eu, seria morte na certa, porque ativo não funcionaria... (bem, ele não esclareceu o que pensava a respeito da outra opção). Agora, ele disse que pegou os três a tarde todinha. No fim, eles pagaram a corrida e deram mais R$ 200,00.

Nova interrupção:
- Deram a ele 200 paus só pra pegar eles? O dinheiro de uma diária inteira só porque ele transou com os caras? Então, tá na cara que ele deu.

P.S.: Vai a bula, antes que alguém pense que estou incitando a homofobia ou o estupro: trata-se de uma história, como tantas outras, que revela o quão grandes podem ser nossas contradições e hipocrisias. É narrando o episódio que quero contribuir para a reflexão coletiva e a não-banalização da violência.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Na alegria e na tristeza?



O romantismo ocidental há muito se preocupa em identificar e descrever quando nos descobrimos apaixonadas. Especula-se se existe amor à primeira vista, se só existe um único grande amor, se o primeiro amor a gente nunca esquece, se amor verdadeiro é eterno... Muito se põe, supõe e pressupõe sobre o universo dos amantes; na maioria dos casos, em seu aspecto hétero,  mas se ampliando para contemplar as relações homoafetivas e reconhecer experiências como as sados e masô, Poucos gastam sua verve com o amor-irmão, com o amor-amigo.
Final de semana passado, enquanto degustava uma garrafa de Casillero del Diablo, discutia com uma pessoa sobre a amizade - mais uma dessas infindáveis, inúteis e deliciosas conversas de fim de tarde na varanda de Peixinhos. Minha amiga tentava me convencer a respeito de um pensamento que ela ouviu de um desses padres pop-stars  "os verdadeiros amigos, conhecemos nos momentos de alegria. Pois, nos momentos de tristeza, muitos poderão permanecer ao nosso lado por pura solidariedade humana genérica - e não necessariamente porque são nossos amigos sinceros". 
(Eu disse! A discussão era assim bem vazia mesmo).
Bom, quem já passou umas poucas e curtiu muitas boas, poderia se dar ares de saber algo, mas como diz um ridículo viral da internet: "só que não"! Não, por favor, não caiamos na tentação de generalizarmos o comportamento humano. Quem disse que alguém muito próximo não pode sentir inveja de seu sucesso, de sua felicidade e continuar seu amigo? Que bobagem é essa de se pensar que não há sádico solto por aí que se aproxima de nós justo nos nossos momentos de dificuldade simplesmente porque a dor e o sofrimento lhe aprazem? Não, não dá para reduzir as vivências humanas a estereótipos. 
Fiquei com essa questão em aberto por alguns dias e, por um desses acasos da vida, enquanto refletia sobre o assunto, recebi a notícia que meu grande amigo, meu irmão, aquele que trago comigo e que sei que me guarda no coração, ele está atravessando uma barra. Ele é aquela pessoa que amei desde sempre, que me entende e para a qual não me preocupo em justificar minhas ações e omissões. Senti cobiça pelos seus carrões zero e não fui assídua em seu leito quando ele se recuperava de uma cirurgia. Poderia, facilmente, ser tida como uma falsa amiga. 
Hoje, faz dois dias que não concilio o sono. Uma dor me acompanha e toda a racionalidade do mundo não dá conta do que sinto. 
Meu amigo, meu melhor amigo, preciso lhe dizer que, na alegria e na tristeza, eu quero estar ao seu lado.